A Lenda do Lineage II

Versão em português brasileiro revisada a partir da história original de Lineage II.

Os nomes próprios e a estrutura dos episódios foram preservados conforme a narrativa antiga.

Capítulos da História

PRÓLOGO — À BEIRA DA FOGUEIRA

Ele inspirou profundamente, tragando a fumaça do cachimbo, e a soltou devagar.

A maior parte de seu rosto estava escondida sob um velho e grosso capuz. Atrás dele havia apenas a escuridão absoluta. Sob o brilho fraco do cachimbo, era impossível distinguir suas feições.

Ele se apresentou como um bardo, embora ninguém realmente acreditasse nisso. Sua voz era grave e áspera, e nos pareceu estranho que alguém como ele tivesse atravessado sozinho aquela floresta perigosa.

Ainda assim, ofereceu-se para nos contar uma história caso dividíssemos com ele nossa refeição e o calor da fogueira.

Aceitamos, ainda que apenas porque não poderíamos abandonar aquele viajante no frio da floresta.

Acomodamo-nos junto ao fogo, mantendo nossas armas prontas para qualquer perigo, e esperamos que ele começasse.

A noite estava congelante. Sua voz baixa e rouca atravessou silenciosamente a montanha. Então, colocando o cachimbo de lado, ele abriu a boca e começou a falar.

EPISÓDIO 1 — GÊNESIS

A história que estou prestes a lhes contar é sobre aqueles a quem chamamos de deuses.

Escutem com atenção, pois esta é a verdadeira história.

Há muito tempo, em uma era anterior a qualquer pensamento, existia apenas uma esfera na qual toda a criação estava reunida. Como nada havia com que pudesse ser comparada, a esfera era grande e pequena, escura e brilhante, tudo e nada ao mesmo tempo.

Ao longo de mais de cem milhões de anos, a esfera começou a crescer. Pouco a pouco, dois poderes começaram a se formar em seu interior. À medida que cresciam, desenvolveram consciência e vontade própria, separando-se em luz branca e escuridão.

A luz branca assumiu a forma de uma mulher e chamou a si mesma de Einhasad.

A escuridão assumiu a forma de um homem e deu a si mesmo o nome de Gran Kain.

Esses dois seres marcaram o início de todo o universo e de tudo aquilo que conhecemos hoje.

Einhasad e Gran Kain uniram suas forças para escapar da esfera. Com isso, ela se despedaçou em inúmeros fragmentos. Alguns subiram e se tornaram o céu; outros caíram e se tornaram o chão. Entre o céu e o chão surgiu a água, e partes do solo se elevaram para formar a terra.

O espírito da esfera era chamado Ether. Quando a esfera se partiu, Ether também foi despedaçado e espalhado. Desse espírito nasceram os animais e as plantas.

As Criaturas do Gênesis também surgiram de Ether, e entre elas os Gigantes eram os mais grandiosos. Eles ficaram conhecidos como os Sábios, pois sua inteligência era tão extraordinária quanto a força de seus corpos.

Os Gigantes juraram fidelidade a Einhasad e Gran Kain, reconhecendo que as ações dos dois deuses haviam criado tanto suas vidas quanto o mundo em que viviam.

Satisfeitos, Einhasad e Gran Kain fizeram dos Gigantes os senhores de todas as criaturas vivas.

Isso aconteceu antes que a morte e o verdadeiro paraíso existissem.

Einhasad e Gran Kain tiveram muitos filhos, também deuses. Aos cinco primeiros foi concedida autoridade sobre o mundo.

A filha mais velha, Shilen, recebeu o domínio sobre a água.

O filho mais velho, Paagrio, recebeu o domínio sobre o fogo.

A segunda filha, Maphr, recebeu o domínio sobre a terra.

O segundo filho, Sayha, tornou-se senhor dos ventos.

Para a mais jovem, Eva, já não restava nenhum elemento. Por isso, ela criou a poesia e a música.

Enquanto seus irmãos se ocupavam de suas responsabilidades, Eva escrevia poemas e os acompanhava com música.

Assim teve início a Era dos Deuses, e não havia um único lugar sobre a Terra que fosse desconhecido por eles.

EPISÓDIO 2 — CRIAÇÃO DAS RAÇAS

Einhasad era a deusa da criação e, usando o próprio espírito, criou formas vazias. Seus filhos utilizaram seus poderes para conceder vida a essas formas.

Shilen colocou o espírito da água na primeira forma criada.

Assim nasceu a raça dos Elfos.

Paagrio colocou o espírito do fogo na segunda forma.

Assim nasceu a raça dos Orcs.

Maphr colocou o espírito da terra na terceira forma.

Assim nasceu a raça dos Anões.

Sayha colocou o espírito do vento na quarta forma.

Assim nasceu a raça das Arteias.

Gran Kain era o deus da destruição. Ao observar o trabalho de Einhasad, ficou curioso e invejoso. Decidiu imitá-la e criou uma forma à própria imagem.

Então procurou Shilen, sua filha mais velha, e pediu que ela colocasse um espírito naquela forma.

Surpresa, Shilen respondeu:

— Pai, por que deseja fazer algo assim? Minha mãe, Einhasad, é responsável pela criação. Não tente tomar para si um trabalho que não lhe pertence. Uma criatura que receba a vida de um deus da destruição só poderá trazer desgraça.

Gran Kain, porém, não desistiu.

Depois de muita insistência, finalmente conseguiu convencer Shilen.

— Está bem. Mas eu já entreguei o espírito da água à Mãe. Tudo o que posso lhe dar são as sobras.

Shilen entregou a Gran Kain o espírito das águas estagnadas e apodrecidas, e ele o aceitou de bom grado.

Ainda assim, Gran Kain acreditava que apenas um espírito não seria suficiente para sua criatura.

Então procurou Paagrio.

Assim como Shilen, Paagrio advertiu o pai, mas não conseguiu recusá-lo. Entregou-lhe o espírito de um fogo que estava se apagando.

Gran Kain aceitou.

Maphr também tentou convencer o pai a desistir e chorou diante dele, mas acabou lhe entregando o espírito de uma terra estéril e contaminada.

Por fim, Sayha lhe deu o espírito dos ventos selvagens e violentos.

Satisfeito, Gran Kain reuniu tudo o que recebera e gritou:

— Olhem para as criaturas que estou criando! Elas nascerão com os espíritos da água, do fogo, da terra e do vento. Serão mais fortes e mais sábias que os Gigantes! Elas governarão o mundo!

Cheio de orgulho, Gran Kain colocou aqueles espíritos nas criaturas feitas à sua própria imagem.

O resultado, porém, foi terrível.

Suas criaturas eram fracas, tolas, astutas e covardes.

Os outros deuses desprezaram a criação de Gran Kain. Envergonhado pelo fracasso, ele abandonou suas criaturas e desapareceu por algum tempo.

Essas criaturas receberam o nome de Humanos.

Os Elfos eram sábios e conheciam a magia, embora ainda fossem menos sábios que os Gigantes. Por isso, os Gigantes os utilizaram em assuntos políticos e mágicos.

Os Orcs eram fortes. Possuíam força inesgotável e uma enorme determinação, mas nem mesmo eles alcançavam a força dos Gigantes. Por isso, serviam principalmente nas guerras.

Os Anões eram habilidosos. Eram excelentes engenheiros, matemáticos e artesãos. Os Gigantes lhes confiaram atividades relacionadas ao comércio, aos bancos e à produção.

As Arteias, uma raça alada, amavam a liberdade e possuíam uma curiosidade inesgotável. Os Gigantes tentaram capturá-las e submetê-las, mas descobriram que, quando uma Arteia era colocada em uma gaiola, rapidamente perdia suas forças e morria.

Sem alternativa, permitiram que elas continuassem livres.

As Arteias visitavam as cidades dos Gigantes trazendo notícias de outras partes do mundo.

Os Humanos, por sua vez, não se destacavam em nada.

Por isso, tornaram-se escravos dos Gigantes e executavam todos os tipos de trabalhos menores.

Naquela época, a vida dos Humanos não era muito diferente da vida dos animais.

EPISÓDIO 3 — GUERRA DOS DEUSES

Gran Kain era um deus livre e sem restrições. Contudo, cometeu um terrível erro ao seduzir Shilen, sua filha mais velha.

Os dois mantiveram uma relação escondida dos olhos de Einhasad até que Shilen ficou grávida.

Quando Einhasad descobriu, foi tomada pela fúria. Retirou de Shilen sua posição como deusa das águas e ordenou que fosse banida do continente.

Gran Kain virou as costas para tudo aquilo, deixando Shilen enfrentar sozinha o próprio destino.

Grávida, Shilen fugiu para o leste.

No coração de uma floresta escura, deu à luz enquanto amaldiçoava Einhasad e Gran Kain a cada terrível dor do parto.

Os filhos que nasceram daquele sofrimento carregavam o desespero e a fúria das maldições de Shilen e tornaram-se demônios.

Entre eles, os mais poderosos foram chamados de Dragões.

Ao todo, seis Dragões nasceram, cada um carregando uma maldição dirigida contra um dos seis deuses.

Shilen estava consumida pelo ódio contra Einhasad, que a havia banido, e contra Gran Kain, que a seduzira e depois a abandonara.

Reunindo seus filhos, formou um exército para punir os deuses. Os Dragões mais poderosos seriam a linha de frente das forças demoníacas.

Ao ouvir isso, Aulakiria, o Dragão da Luz, olhou tristemente para Shilen e disse:

— Mãe, você não sabe o que está fazendo. Deseja realmente a destruição eterna dos deuses? Deseja ver seu pai, sua mãe e seus irmãos caídos no chão, em meio ao próprio sangue?

As palavras de Aulakiria não mudaram a decisão de Shilen.

Os demônios invadiram o palácio dos deuses, e uma batalha feroz teve início.

Os seis Dragões destruíram tudo ao seu redor. Até mesmo os deuses ficaram intimidados diante de seu poder.

A guerra parecia destinada a durar para sempre.

Entretanto, se aquela batalha continuasse, o próprio mundo deixaria de existir e toda forma de vida seria destruída.

Inúmeros mensageiros dos deuses e demônios foram mortos ou desapareceram. Todos os dias, trovões e relâmpagos rasgavam o céu enquanto forças imensas se chocavam violentamente.

Os Gigantes e todas as demais criaturas da Terra tremiam ao observar a guerra nos céus.

A batalha prosseguiu durante anos até que, lentamente, o equilíbrio começou a pender para um dos lados.

Mesmo gravemente feridos, Einhasad e Gran Kain ainda possuíam poderes superiores e destruíram muitos demônios.

Os Dragões continuaram lutando, embora seus corpos estivessem cobertos de feridas e cicatrizes. O cansaço tornou-se cada vez mais evidente.

Por fim, parecia inevitável que o exército de Shilen fosse exterminado.

Os Dragões abriram suas asas e fugiram para a Terra. Os demônios sobreviventes os seguiram.

Os deuses quiseram perseguir e destruir o exército em retirada, mas estavam feridos demais para fazê-lo.

Tudo o que puderam fazer foi observar enquanto Dragões e demônios escapavam.

Vendo seus filhos morrerem um após outro e seu exército perder a guerra, Shilen não conseguiu suportar a tristeza.

Então criou o Underworld e passou a governá-lo.

EPISÓDIO 4 — A GRANDE INUNDAÇÃO

Depois da queda de Shilen, Eva herdou a autoridade sobre as águas.

Eva, porém, possuía uma natureza tímida. Depois de testemunhar o terrível destino de sua irmã e a guerra entre os deuses, tornou-se ainda mais medrosa.

Para fugir do peso da responsabilidade que havia recebido, cavou um túnel no fundo de um lago e se escondeu.

Sem uma deusa para governá-los, os espíritos das águas perderam seu propósito e começaram a vagar sem direção.

Em alguns lugares, água demais se acumulou e formou enormes pântanos. Em outros, nenhuma água chegava e desertos surgiram.

Partes do continente afundavam repentinamente no oceano, enquanto novas ilhas apareciam do nada.

Em certas regiões, chovia dia e noite até que tudo, exceto os picos das montanhas mais altas, desaparecesse sob a água.

Onde quer que restasse um pedaço de terra firme, criaturas de todas as espécies se amontoavam numa tentativa desesperada de sobreviver.

Tanto na terra quanto no mar, todos sofriam.

Em nome das criaturas vivas, os Gigantes pediram ajuda aos deuses.

Einhasad e Gran Kain procuraram por todo o continente até finalmente encontrarem o lago onde Eva estava escondida.

Einhasad disse:

— Eva, veja o que aconteceu porque fugiu de sua responsabilidade. Você está destruindo a harmonia deste continente que criamos com tanto esforço. Não tolerarei que continue me desobedecendo.

Einhasad estava tão furiosa que seus olhos pareciam arder em chamas.

Por causa das inundações, incontáveis Gigantes e outras criaturas haviam partido para o mundo de Shilen, o que despertou o ciúme de Einhasad.

Tremendo de medo, Eva finalmente se rendeu à vontade da mãe.

Quando reassumiu seu domínio e colocou as águas novamente em ordem, os desastres começaram a cessar.

Ainda assim, já era impossível restaurar completamente o continente devastado.

EPISÓDIO 5 — DESAFIO DOS GIGANTES

Os Gigantes começaram a alimentar dúvidas em seus corações.

Gran Kain já havia demonstrado sua estupidez ao criar uma criatura inferior chamada Humano.

Além disso, por causa da conduta de Gran Kain e do ciúme de Einhasad, o Underworld havia surgido e inúmeros demônios tinham vindo à existência.

Devido à fraqueza de Eva e à sua incapacidade de controlar as águas, o continente havia sido devastado.

Uma pergunta começou a crescer na mente dos Gigantes:

Será que aqueles deuses realmente mereciam sua adoração?

Os Gigantes eram capazes de viajar em carruagens construídas pelas próprias mãos e entrar livremente no palácio dos deuses.

Usando magia, podiam erguer uma ilha no céu e viver acima da terra como os próprios deuses.

Também eram capazes de prolongar a própria vida a tal ponto que pareciam destinados a viver para sempre.

Pouco a pouco, começaram a acreditar que seus poderes eram iguais aos dos deuses.

Apesar de toda a sua sabedoria, tornaram-se excessivamente arrogantes.

E assim os Gigantes decidiram se tornar deuses.

Começaram a modificar organismos vivos e criar novas formas de vida.

À magia capaz de produzir tais milagres, os Gigantes deram o nome de ciência.

Embriagados pelo próprio poder, organizaram um grande exército para enfrentar os deuses, mesmo sabendo que Shilen, os seis Dragões e incontáveis demônios já haviam fracassado na mesma tentativa.

Quando os deuses descobriram os preparativos, ficaram furiosos.

Einhasad, que considerava exclusivamente seu o direito de criar vida, ficou sem palavras diante de tamanha ira.

Ela jurou destruir todos os Gigantes, juntamente com o continente e o próprio mundo.

Gran Kain tentou acalmá-la:

— Assim como você é a Mãe da Criação, a destruição é minha responsabilidade. Você sabe muito bem o que aconteceu comigo quando desejei tomar para mim aquilo que era seu dever. Eu mesmo punirei os Gigantes por sua arrogância. Mas, se ainda assim desejar destruir o mundo inteiro, lutarei contra você com tudo o que tenho.

Gran Kain não permitiria que o continente fosse destruído.

Einhasad ficou profundamente ofendida com sua intervenção, mas os dois possuíam forças equivalentes e ela não podia simplesmente ignorá-lo.

Por fim, cedeu.

Para punir os Gigantes, decidiu tomar emprestado o martelo de Gran Kain, uma arma conhecida como Hammer of Despair.

Seu poder destrutivo era tão grande que nem mesmo Gran Kain jamais a havia utilizado.

Consumida pela fúria, Einhasad ergueu o martelo acima da cabeça e o lançou contra o centro da cidade dos Gigantes.

EPISÓDIO 6 — O FIM DAS ERAS

Somente quando chamas vermelhas começaram a cair do céu os Gigantes perceberam o terrível erro que haviam cometido.

Uniram todas as suas forças para tentar impedir o golpe de Einhasad com o Hammer of Despair.

Mesmo com todo o poder dos Gigantes, porém, conseguiram apenas desviar levemente a trajetória da arma.

Ainda assim, o martelo atingiu o mundo.

Isso foi suficiente para destruir a maior cidade existente. Incontáveis Gigantes e membros das outras raças foram mortos instantaneamente.

Uma enorme cratera se abriu na terra e ondas gigantescas cobriram sua superfície.

Ao final da catástrofe, quase todos os Gigantes haviam morrido.

Os sobreviventes fugiram para o leste tentando escapar da ira de Einhasad, seguindo uma rota semelhante àquela percorrida por Shilen quando fora banida.

Einhasad continuou perseguindo-os e matou um a um com seus relâmpagos.

Apavorados, os últimos Gigantes clamaram por Gran Kain:

— Gran Kain! Gran Kain! Reconhecemos nossos erros! Somente você pode impedir a fúria e a loucura de Einhasad. Não permita que sejamos exterminados, nós que nascemos do mesmo lugar que você, nós que fomos as criaturas mais sábias e fortes desta terra!

Gran Kain sentiu uma profunda compaixão por aquelas criaturas e concluiu que já haviam sofrido o suficiente.

Então ergueu as águas mais profundas dos mares do sul para bloquear o caminho de Einhasad.

Furiosa, ela gritou:

— O que é isso? Quem ousa interferir comigo? Eva, minha filha amada, retire imediatamente a água que bloqueia meu caminho ou esteja preparada para seguir o destino de sua irmã!

Com medo da mãe, Eva devolveu as águas ao mar.

Einhasad prosseguiu em sua perseguição.

Novamente os Gigantes clamaram:

— Gran Kain! O mais poderoso dos deuses! Einhasad continua nos perseguindo e está determinada a nos exterminar! Tenha misericórdia e salve-nos!

Gran Kain então ergueu a terra sobre a qual os Gigantes estavam.

Uma enorme elevação bloqueou o caminho de Einhasad.

Ela gritou:

— Maphr, minha filha amada! Quem ousa interferir em meu caminho? Abaixe esta terra imediatamente ou esteja preparada para seguir o destino de sua irmã!

Assustada, Maphr tentou obedecer, mas Gran Kain a impediu.

Então ele se dirigiu a Einhasad:

— Por que não desiste? Toda a Terra conhece sua ira e treme diante de você. Os sábios, porém tolos, Gigantes compreenderam seu erro. Veja-os! A raça orgulhosa e nobre que um dia governou a Terra agora se esconde em uma estreita faixa de terra, tremendo de medo enquanto tenta escapar de você. Eles nunca mais poderão desafiar os deuses. Este lugar será sua prisão para sempre. Acalme sua ira. Sua vingança está completa.

Einhasad ainda estava furiosa, mas não podia agir contra Gran Kain, pois ele possuía força igual à sua.

Concluiu que seria melhor deixar os Gigantes naquele território estreito e estéril, onde poderiam se arrepender eternamente de seus pecados, do que exterminá-los por completo.

Assim, encerrou sua perseguição e voltou para sua morada.

Depois disso, profundamente decepcionada com os seres da Terra, Einhasad raramente voltou a interferir diretamente nos acontecimentos do mundo.

Gran Kain também decidiu não mais se mostrar na Terra.

A Era dos Deuses chegava ao fim.

EPISÓDIO 7 — DE VOLTA À FOGUEIRA

O estranho interrompeu sua história por alguns instantes.

Tão envolvidos estávamos pelo relato que mal havíamos nos movido enquanto ele narrava a história do nosso mundo.

Sua voz, embora suave, penetrava profundamente em nossas mentes, como se possuísse alguma natureza mágica.

O mito que ele contava era completamente diferente daquele que conhecíamos, mas ninguém protestava.

Nós, guerreiros experientes vindos de várias terras, sentíamo-nos atraídos por aquele estranho e, ao mesmo tempo, inquietos, nervosos e até temerosos diante daquele simples homem.

Quando uma coruja próxima levantou voo, estremecemos com o súbito bater de suas asas.

O estranho soltou uma pequena risada, levou o cachimbo fumegante aos lábios e continuou:

— Não descartem minha história apenas porque ela é diferente daquilo que vocês conhecem sobre os deuses. Não existe prova alguma de que seus sacerdotes estejam mais próximos da verdade do que um poeta errante. A história dos deuses pertence à vontade dos próprios deuses, não à dos Humanos. Como simples sacerdotes poderiam conhecer toda a verdade?

Ele fez uma breve pausa.

— Escutem novamente enquanto continuo. Esta é a história da Terra depois do desaparecimento dos deuses. É a história de vocês mesmos.

EPISÓDIO 8 — AS CONSEQUÊNCIAS

Com o desaparecimento repentino dos Gigantes, o mundo mergulhou em grande turbulência.

Acostumados a serem governados por eles, Elfos, Orcs, Anões e Humanos foram obrigados a enfrentar a dura realidade de sobreviver por conta própria.

Além disso, o mundo em que viviam havia sido devastado pelo golpe do Hammer of Despair.

Muitos morreram durante os desastres provocados por Einhasad, e muitos outros morreram no caos e na confusão que se seguiram.

As raças da Terra imploraram aos deuses por salvação, mas nenhuma resposta veio.

Os primeiros a assumir o controle da situação foram os Elfos, pois durante a Era dos Gigantes haviam sido responsáveis pelos assuntos políticos.

Eles conseguiram reunir as raças e estabelecer alguma ordem.

Com o passar do tempo, porém, ficou claro que os Elfos não possuíam a mesma capacidade de governar que os Gigantes.

Os primeiros a se rebelar contra eles foram os Orcs.

— Os Elfos são mais fortes que nós? Não! Eles têm o direito de nos governar? Não! Não podemos aceitar que aqueles que são mais fracos ousem se colocar acima de nós!

O poder militar dos Orcs era imenso.

Como os Elfos haviam vivido durante muito tempo em paz, não estavam preparados para enfrentar guerreiros tão orgulhosos e destemidos.

Em pouco tempo, grande parte do território tornou-se domínio dos Orcs e os Elfos foram empurrados para uma pequena região do continente.

Desesperados, procuraram ajuda dos Anões, cuja riqueza e armas superiores poderiam ajudá-los a enfrentar os Orcs.

— Raça da Terra, venham em nosso auxílio! As violentas hordas dos Orcs nos perseguem com sua força esmagadora. Venham, vamos combatê-los juntos!

Os Anões, porém, recusaram friamente.

Na visão deles, o mundo havia passado para as mãos dos Orcs. Não havia razão para que uma raça pragmática escolhesse o lado mais fraco.

Furiosos, os Elfos nada puderam fazer para mudar a decisão.

Voltaram-se então para as Arteias, a raça do vento. Suas habilidades de reconhecimento e seus ataques aéreos poderiam oferecer a vantagem necessária.

Uma delegação élfica viajou até terras distantes para pedir sua ajuda.

— Raça do Vento, venham em nosso auxílio! Os bárbaros Orcs nos oprimem com sua força. Juntem-se a nós e mostremos a eles sua insensatez!

Como sempre, porém, as Arteias não demonstraram interesse nas guerras ou na política da Terra.

Decidiram não apoiar nenhum dos lados e se retiraram ainda mais para o interior de suas terras.

Os Elfos caíram em desespero.

— Ninguém irá nos ajudar? Será esse o fim de nossa raça? Os Orcs tomarão todas as terras, toda a glória e toda a riqueza para si?

EPISÓDIO 9 — UMA NOVA ALIANÇA

Rejeitados pelos pragmáticos Anões e pelas neutras Arteias, os Elfos ficaram sem aliados para lutar contra os Orcs.

Enquanto lamentavam seu destino, um estranho apareceu entre eles.

Ele se ajoelhou diante do rei dos Elfos, que, ao observá-lo de perto, percebeu que se tratava de um representante dos Humanos.

O homem usava uma coroa feita de galhos de árvores.

— O que deseja, líder dos miseráveis Humanos? — perguntou o rei élfico. — Veio zombar de nossa situação?

O Humano abaixou a cabeça.

— Não, sábio rei. Viemos perguntar se nossas humildes forças podem lhes ser úteis.

Os Elfos se alegraram. Embora considerassem os Humanos fracos e tolos, seus números eram enormes e poderiam ser úteis em batalha.

— Sua atitude é admirável, rei dos Humanos — respondeu o rei élfico. — Seres insignificantes vocês podem ser, mas sua lealdade e disposição para sacrificar suas vidas por nós merecem reconhecimento. Lutem ao nosso lado pela vitória e conquistarão uma posição logo abaixo da dos Elfos.

O rei Humano curvou-se profundamente e então ergueu a cabeça.

— Nobre rei dos Elfos, temos apenas um pedido antes de lutarmos pela gloriosa vitória de sua raça. Nossos poderes são fracos demais. Nossos dentes mal arranham a pele dos Orcs, e nossas unhas nada podem contra seus músculos. Imploramos que nos deem o poder necessário para enfrentá-los. Ensinem-nos o conhecimento da magia.

A proposta provocou choque e fúria.

Ensinar magia aos Humanos?

Jamais.

Alguns Elfos já se preparavam para transformar os emissários em cinzas quando Veora, uma das líderes élficas, interveio.

Ela considerava o pedido inofensivo.

Os Humanos eram fracos demais para derrotar os Orcs sem ajuda e, com suas mentes consideradas inferiores, parecia improvável que algum dia dominassem a magia a ponto de representar uma ameaça.

Foi uma decisão que mais tarde lhe custaria a vida.

Os Humanos aprenderam magia com uma velocidade muito maior do que os Elfos haviam imaginado.

Seus corpos, embora menos fortes que os dos Orcs, haviam sido endurecidos por gerações de trabalho pesado e conflitos entre si.

Também eram habilidosos com as mãos e aprendiam rapidamente a utilizar armas.

Acima de tudo, eram numerosos.

Em pouco tempo, o exército Humano tornou-se uma força formidável.

EPISÓDIO 10 — UM ALIADO SE TORNA INIMIGO

A aliança entre Humanos e Elfos começou gradualmente a superar os Orcs.

À medida que a guerra se inclinava a favor da aliança, os Anões mudaram de lado e passaram a fabricar equipamentos para os Humanos.

Com armaduras resistentes e armas afiadas produzidas pelos Anões, os Humanos logo conseguiram enfrentar os Orcs sem depender diretamente das forças élficas.

Os Elfos ficaram inquietos.

Percebiam que os Humanos estavam se tornando cada vez mais poderosos e escapando de seu controle.

Ainda assim, recusavam-se a acreditar que a raça que sempre haviam considerado inferior pudesse realmente se voltar contra eles.

Além disso, a vitória final contra os Orcs parecia próxima demais para que desviassem sua atenção.

Os Humanos continuaram aprendendo formas cada vez mais avançadas de magia.

Finalmente, a guerra terminou com a vitória da aliança entre Humanos e Elfos.

Os Orcs foram obrigados a assinar um humilhante tratado de paz e recuaram para seus territórios no norte de Elmore.

Ao partir, o líder Orc riu:

— Elfos tolos. Esta vitória não pertence a vocês, mas aos Humanos que tanto desprezam. Como pretendem controlar os monstros que vocês mesmos criaram?

Suas palavras logo se provaram verdadeiras.

Depois de uma guerra tão longa, os Elfos estavam exaustos e enfraquecidos.

Os Humanos, por outro lado, haviam se tornado fortes e dominavam novos poderes mágicos.

Então se rebelaram contra seus antigos aliados.

Tarde demais, os Elfos perceberam que haviam acolhido sob suas asas uma força que não podiam mais controlar.

Uma nova guerra, de magia contra magia, abalou o mundo.

Os Elfos foram lentamente empurrados para trás até precisarem fugir para a segurança de suas florestas.

Ali, onde sua magia era mais poderosa, prepararam-se para o confronto final.

Profundas fortificações e passagens subterrâneas logo ecoaram com o som de espadas e gritos de guerra.

A batalha durou três meses.

Ao final, os Humanos venceram.

Nem o orgulho élfico, nem o poder mágico das florestas, nem mesmo a superioridade de sua magia foram suficientes contra o fluxo quase interminável de soldados Humanos.

Os Elfos sofreram enormes perdas e recuaram para as regiões mais profundas da floresta.

Durante a retirada, ergueram poderosas barreiras mágicas para impedir a entrada de Humanos e de outras raças.

E assim os Humanos se tornaram os conquistadores da Terra.

EPISÓDIO 11 — O RETORNO À FOGUEIRA

O estranho levantou os olhos ao terminar mais uma parte de sua história.

A narrativa era diferente de tudo o que já havíamos ouvido e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.

Uma bela donzela élfica que estava entre nós permaneceu em silêncio, com lágrimas se acumulando em seus olhos.

A noite havia se aprofundado enquanto o estranho falava.

Já não se ouviam os sons dos animais selvagens.

O vento deixara de mover os galhos acima de nós, e até mesmo a água de um riacho próximo parecia correr mais silenciosamente.

Restavam apenas o som de nossa respiração e o crepitar da fogueira.

Parecia que toda a natureza ao redor prendia a respiração para ouvir aquela história.

Nós nos inclinamos um pouco mais para perto.

O estranho limpou a garganta com uma tosse grave e voltou a falar:

— Não é irônico que as criaturas mais inferiores de todas, os Humanos, tenham acabado conquistando a Terra? Isso é resultado da vontade humana. Nem mesmo os deuses imaginaram que um dia os Humanos se tornariam governantes do mundo.

Então acrescentou:

— Agora lhes contarei a história do mais brilhante reino Humano que já existiu. Esta é a história dos Humanos que caminharam pelo mesmo caminho dos Gigantes.

EPISÓDIO 12 — HISTÓRIA REESCRITA

Durante as longas guerras contra Orcs e Elfos, os Humanos começaram a formar seus primeiros reinos.

O grupo mais importante era formado pelo clã Athena e por Humanos habilidosos em magia.

Eles protegiam seu povo com poder, mantinham a ordem por meio de ameaças e se envolviam constantemente em conflitos de diferentes proporções.

A ordem foi estabelecida quando Shuniman, líder do clã Athena, unificou as regiões hoje conhecidas como Aden e Elmore.

Ele chamou seu reino de Elmoreden e coroou a si mesmo imperador.

A antiga coroa feita de galhos de árvore, usada pelos seus antepassados, foi substituída por uma coroa de ouro adornada com joias brilhantes.

Entre seus seguidores, Shuniman passou a ser visto quase como uma presença divina.

O imperador, porém, preocupava-se com a curta duração da vida dos Humanos.

O fato de Gran Kain, deus da morte e da destruição, ser seu criador alimentava um sentimento de inferioridade.

Também era humilhante para os novos governantes da Terra lembrar que os Humanos haviam sido criados com aquilo que restara dos espíritos utilizados nas demais raças.

O novo reino precisava de um novo mito.

Precisava de uma história que provasse a nobreza dos Humanos.

Por meio de uma ampla reforma religiosa, Shuniman transformou Einhasad na deusa dos Humanos, substituindo Gran Kain.

Mitos e registros históricos foram alterados.

Praticantes de magia negra e seguidores de Gran Kain passaram a ser perseguidos.

A reforma continuou por gerações até que os Humanos passaram a acreditar que Einhasad, deusa do bem, era sua verdadeira criadora, enquanto Gran Kain era apenas o deus do mal.

Quando soube disso, Gran Kain apenas riu.

— Mesmo que não me sirvam, não ficarei furioso. Mas, tolos Humanos, por mais que tentem cobrir o céu com as próprias mãos, será o céu realmente menor do que aquilo que conseguem alcançar?

EPISÓDIO 13 — ELMOREDEN E PERIOS

Enquanto o imperador Shuniman e o reino de Elmoreden cresciam e prosperavam, a região de Gracia, do outro lado do mar, continuava mergulhada em conflitos.

A geografia de Gracia era variada e perigosa.

Muitos grupos Humanos lutavam pelo controle da região, mas nenhum poder havia conseguido unificá-la.

Pequenos reinos ocupavam diferentes partes do território e travavam desde pequenas escaramuças até grandes batalhas em busca de domínio.

Então chegou o dia em que o poderoso exército de Elmoreden invadiu aquelas terras através da passagem marítima ocidental.

Diante da ameaça, os reinos de Gracia foram obrigados a se unir para se defender.

Grande parte da realeza e da aristocracia local morreu durante a invasão.

Os aristocratas sobreviventes, porém, tornaram-se mais poderosos.

No fim, a invasão de Elmoreden foi repelida.

Ainda assim, ela serviu para criar as bases de um reino unificado em Gracia.

Esse reino recebeu o nome de Perios.

A partir de então, Perios e Elmoreden passaram a disputar continuamente a supremacia.

Elmoreden, que havia se unificado primeiro e possuía enorme poder militar, era claramente superior.

Perios, contudo, possuía vantagens importantes.

O mar entre os dois reinos restringia as rotas de invasão de Elmoreden.

Além disso, o povo de Perios possuía poderosas relíquias deixadas pelos Gigantes, que podiam ser utilizadas em batalha.

Mesmo com toda a sua força, Elmoreden jamais conseguiu conquistar Perios por completo.

EPISÓDIO 14 — BELETH E A IVORY TOWER

O reino de Elmoreden abrigava a Ivory Tower, uma instituição dedicada ao estudo da magia.

Os magos da torre trabalhavam para recuperar, estudar e aperfeiçoar os conhecimentos mágicos dos antigos Gigantes.

A habilidade dos estudiosos era tão grande que, em determinado período, sua influência dentro do reino chegou perto da autoridade do próprio imperador.

Entre esses magos estava Beleth.

Ele era considerado o mais poderoso de todos e um dos maiores gênios que já caminharam sobre a Terra.

Beleth tornou-se obcecado pela magia dos Gigantes e conseguiu adquirir uma grande parte de seus poderes.

Mas aquele era um poder amaldiçoado, inadequado para os Humanos.

À medida que dominava essas forças, sua ambição e seu desejo de controlar o mundo cresceram de forma descontrolada.

Alarmados, o reino e os magos da Ivory Tower uniram forças contra ele.

Beleth, porém, havia se tornado extremamente poderoso nas artes das trevas.

Por fim, os magos da Ivory Tower recorreram a uma antiga magia negra proibida.

Conseguiram enfraquecer Beleth o suficiente para aprisioná-lo e selá-lo nas masmorras sob a torre.

Apesar dos cavaleiros e magos encarregados de guardar o selo, Beleth conseguiu quebrá-lo e escapar.

Fugiu para Hellbound Island, onde buscaria recuperar suas forças e continuar seu plano de conquistar a Terra.

A magia negra utilizada para aprisioná-lo também deixou outra consequência.

As regiões ao sul da área hoje conhecida como Gludio foram devastadas, e muitos Humanos morreram durante o lançamento dos feitiços.

O reino atribuiu toda a tragédia a Beleth e espalhou a história de que ele era um verdadeiro demônio entre os homens.

EPISÓDIO 15 — DISCÓRDIA ÉLFICA

Uma grande mudança ocorreu nas florestas élficas durante esse período.

Depois de perderem o controle do continente para os Humanos, os Elfos gradualmente perderam a confiança.

Quase abandonaram a antiga ambição de governar a Terra e passaram a se contentar com uma vida tranquila dentro de suas florestas.

Entretanto, havia entre eles um grupo conhecido como Brown Elves.

Eles desprezavam a acomodação dos demais e defendiam que a guerra contra os Humanos deveria continuar, mesmo que para isso fosse necessário utilizar magia negra proibida.

Os outros Elfos se opuseram violentamente.

Foi então que um mago Humano apareceu diante dos Brown Elves.

Aproximando-se de seu líder, disse:

— Rei dos Brown Elves, você deseja poder. Mas os fracos Tree Elves e seus aliados temem que alcance a força que merece. Eles só pensam na possibilidade de que você os ataque ou provoque os Humanos e traga uma calamidade ainda maior. Foram pensamentos como esses que enfraqueceram a raça élfica.

O líder dos Brown Elves respondeu com desconfiança:

— Quem é você, mago Humano? O que pretende ao tentar nos enganar?

— Meu nome é Dasparion. Sou apenas um mago, mas possuo o poder que você deseja. Posso ajudá-lo a alcançar suas ambições. Em troca, deverá me entregar aquilo que eu quero.

— E o que você deseja?

— Sua juventude. O segredo da vida eterna.

Um leve sorriso surgiu nos lábios de Dasparion.

— Apesar de todo o meu conhecimento mágico, continuo sendo Humano, e minha vida não chega sequer a cem anos. Então, rei dos Brown Elves, qual é sua decisão? Podemos ajudar um ao outro a conseguir aquilo que desejamos.

Seduzidos pelo poder da magia negra de Dasparion, os Brown Elves aceitaram a proposta e aprenderam as artes das trevas sob sua orientação.

Em troca, Dasparion obteve o conhecimento da longevidade e deixou a floresta satisfeito.

Ao descobrirem o que havia acontecido, os demais Elfos baniram os Brown Elves, que haviam abandonado Einhasad e passado a seguir Gran Kain.

Uma guerra teve início entre eles.

Seguindo um plano de Dasparion, os Brown Elves utilizaram um feitiço mortal para exterminar os Tree Elves.

À beira da morte, porém, os Tree Elves lançaram uma maldição sobre seus inimigos.

A maldição apodreceu as florestas dos Brown Elves e transformou seu povo em uma raça das trevas.

A partir daquele momento, os Brown Elves passaram a ser conhecidos como Dark Elves.

EPISÓDIO 16 — FIM DE UMA ERA DE OURO

A Era de Ouro de Elmoreden aconteceu aproximadamente mil anos depois da fundação do reino, durante o governo do imperador Baium.

Com enorme carisma e grande habilidade de liderança, Baium criou o exército mais poderoso da história de Elmoreden.

Suas forças expulsaram os Orcs, que ainda possuíam grande influência nas regiões ao norte de Elmore, para as florestas escuras que mais tarde seriam conhecidas como o Reino dos Orcs.

O exército de Baium também realizou repetidos ataques contra Perios e acabou ocupando partes do sul de Gracia.

Nos últimos anos de seu reinado, porém, Baium perdeu o interesse pelas conquistas.

Passou a utilizar os recursos do reino na construção de uma enorme torre que se elevaria acima das nuvens.

Baium declarou:

— Meu nome inspira medo em todos os cantos do continente. Dezenas de milhares de vidas podem ser salvas ou destruídas por um simples movimento da minha mão. Meu poder é absoluto. Não posso aceitar que só possa possuir tamanho poder por algumas décadas! Não. Obterei dos deuses a vida eterna e governarei meu reino para sempre!

A magnífica torre idealizada por Baium levou trinta anos para ser construída.

Seu objetivo era alcançar a morada dos deuses e conquistar o segredo da vida eterna.

Quando finalmente chegou ao topo, os deuses responderam à sua arrogância:

— Filho dos miseráveis Humanos, e miserável Humano você também é. Ousa profanar nossa morada para conquistar a própria vida eterna? Não aprendeu nada com o destino dos Gigantes? Muito bem. Se a vida eterna é o que deseja, concederemos seu pedido. Mas você jamais deixará esta torre.

Baium havia atraído sobre si a ira dos deuses.

Foi condenado a permanecer eternamente no alto de sua torre.

Com o súbito desaparecimento do imperador, membros da família real passaram a lutar ferozmente pelo trono.

Muitos aristocratas também aproveitaram a oportunidade para reivindicar o poder.

Elmoreden mergulhou em conflitos internos.

O custo e a enorme quantidade de trabalho exigidos para a construção da torre já haviam enfraquecido o reino.

A disputa pelo trono foi o golpe final.

O esplêndido reino de Elmoreden, que dominara o continente por mais de mil anos, entrou em rápido declínio.

Em apenas vinte anos, o grande império estava em ruínas.

EPISÓDIO 17 — O RETORNO À FOGUEIRA

A história, oferecida em troca de comida e de uma fogueira quente, seguia por caminhos cada vez mais inquietantes.

Ainda não sabíamos quem era aquele estranho nem por que nos contava aquelas histórias.

Mesmo assim, continuávamos ouvindo.

Éramos uma audiência cativa, incapaz de desviar os olhos ou sequer nos mover, como se alguma força invisível nos mantivesse presos aos nossos lugares.

O homem agia como se nem estivéssemos ali.

Recolheu alguns gravetos secos ao redor dos pés e os lançou nas chamas quase apagadas.

A fogueira voltou a arder com força.

Sem sequer olhar em nossa direção, ele tornou a falar:

— Minha história está chegando ao fim. O que vou contar agora lhes será mais familiar. É a história da luta pelo poder entre os Humanos, uma luta que continua até os dias de hoje. Esta é a história do continente depois da queda de Elmoreden.

EPISÓDIO 18 — BATALHA PELO CONTINENTE

A queda de Elmoreden retardou o declínio de Perios, mas nada conseguiu impedir as pragas que avançaram pelas regiões de Gracia nem o frio devastador que veio do norte.

Assim como Elmoreden antes dele, Perios desapareceu nas páginas empoeiradas da história.

Depois da queda daqueles grandes reinos, o mundo mergulhou novamente em terrível caos.

A aristocracia Humana lutava entre si pela supremacia, e alguns nobres chegaram a conceder terras a não Humanos em troca de apoio militar.

Os Orcs aproveitaram a oportunidade.

Reorganizaram seus exércitos e iniciaram mais uma campanha para dominar o continente.

Suas forças eram poderosas e logo ocuparam as regiões ao norte de Elmore.

Entretanto, conflitos internos entre Orcs nobres e Orcs de classes inferiores acabaram enfraquecendo seu poder.

Enquanto isso, os Elfos mal conseguiam fazer algo além de lutar pela própria sobrevivência na guerra interminável contra seus irmãos Dark Elves.

Os Anões também não foram capazes de enfrentar o exército Orc e acabaram sendo empurrados para fora de seus territórios.

Foi nesse período que surgiu uma poderosa facção Humana conhecida como Reino de Elmore.

Seus governantes afirmavam descender diretamente dos antigos imperadores de Elmoreden.

Verdade ou mito, pouca gente ousava contestá-los, pois suas palavras eram sustentadas pela força e pelo aço.

O exército de Elmore enfrentou os Orcs em inúmeras batalhas.

A guerra durou muitos anos e custou caro aos dois lados.

Os Humanos eram mais numerosos, mas a força física dos Orcs fazia deles adversários formidáveis.

No final, os Orcs foram derrotados e expulsos novamente para suas terras.

Os poucos Anões que permaneceram foram banidos do continente Humano e forçados a se retirar para as profundezas das Spine Mountains.

Depois de conquistar o controle das terras do norte, o exército de Elmore marchou para o sul tentando reunificar todo o continente sob sua bandeira.

A unificação, porém, não aconteceu.

Oren, o mais poderoso dos reinos do sul, conseguiu repelir os invasores com seus magos poderosos e soldados bem treinados.

Elmore não conseguiu superar a determinação de um exército que lutava para defender a própria terra.

Sob a proteção de Oren, os vários reinos do sul prosperaram e começaram a assumir a forma de uma nova nação.

Mantendo certo equilíbrio entre si, tornaram-se fortes e prósperos.

EPISÓDIO 19 — A ASCENSÃO DE DOIS REINOS

Muitas guerras atravessaram inúmeras gerações.

Em meio ao caos, Gracia foi a primeira região a começar a reunir os caminhos da unificação.

Um homem chamado Paris, conhecido por sua habilidade militar e extraordinária força, trouxe glória ao seu povo ao vencer inúmeras batalhas e conquistar territórios em nome de Beheim.

Paris alcançou status lendário quando ele e seu exército enfrentaram os ferozes montanheses de Quaser.

Em uma luta desesperada contra Tor, o mais poderoso guerreiro de Quaser, Paris conseguiu feri-lo decisivamente.

Tor jamais havia sido derrotado.

Diz a lenda que, ferido, perguntou:

— Você pode realmente ser Humano? Tamanha força... tamanha velocidade!

Paris olhou para o campo de batalha e respondeu:

— É tamanho o meu desejo de unificar esta terra. Bravo guerreiro do Norte, jure sua lealdade a mim e, juntos, conquistaremos todos aqueles que se colocarem em nosso caminho.

Assim, Paris passou a liderar os White Hawk Knights, os Wind Knights e os montanheses que agora haviam se tornado seus aliados.

Seus exércitos conquistaram sucessivas vitórias em Gracia.

As terras de Beheim cresceram até alcançar mais de cinco vezes seu tamanho original.

Por fim, Paris liderou uma revolta contra a realeza e tomou o trono.

Enquanto isso, as terras do sul também viviam um período de intensa movimentação.

As notícias sobre os conflitos em Gracia e Elmore causavam preocupação.

Foi então que surgiu um líder carismático chamado Raoul.

Raoul iniciou uma campanha para reunir forças sob sua própria bandeira.

Diferentemente de Paris, sua maior arma não era a espada, mas a palavra.

Em seus discursos, dizia:

— Senhores destas terras! Não veem o que acontece além de nossas fronteiras? Inimigos formidáveis marcham em nossa direção enquanto falamos! O Reino de Elmore há muito deseja nossas riquezas e nossas terras, esperando apenas o momento certo para atacar. Se Gracia, do outro lado do mar, também decidir avançar, seremos dominados! Não existe outra escolha além de reunir nossos exércitos sob uma única bandeira e nos preparar para a guerra!

Com sua capacidade de persuasão, Raoul foi unindo os territórios do sul.

Na realidade, a ameaça imediata de Elmore não era tão grande quanto parecia, pois o reino estava ocupado enfrentando uma enorme revolta Orc e não podia concentrar todas as suas forças em Aden.

Raoul primeiro se uniu ao seu fiel aliado Innadril.

Juntos, estabeleceram o Reino de Aden.

Ao contrário de Paris, Raoul conduziu grande parte de sua campanha com pouco derramamento de sangue.

Avançou para o oeste e incorporou Giran e Dion.

Foi em Oren que encontrou a primeira grande resistência.

Oren considerava a si mesmo o verdadeiro líder das terras do sul e não aceitava submeter-se a outro governante.

Os dois reinos acabaram entrando em guerra.

Aden, porém, conquistou uma vitória notável.

Gludio, testemunhando a força do exército de Aden, decidiu voluntariamente se aliar ao novo reino.

Com isso, a unificação de Aden foi concluída.

Raoul passou então a ser conhecido como o Rei da Unificação.

EPISÓDIO 20 — OS HERDEIROS DA TERRA

Pouco depois da unificação de Aden, Gracia também consolidou seus territórios quando a última resistência, Hwuh, caiu diante de Paris.

Paris transferiu a capital para Arpenino e reorganizou a estrutura de seu reino.

O recém-fortalecido Reino de Aden demonstrou seu poder ao repelir com sucesso os avanços de Elmore.

Entretanto, uma nova página da história começou quando Raoul morreu repentinamente.

Percebendo uma oportunidade, Elmore iniciou repetidas invasões contra as terras ao norte de Aden.

Trabis, sucessor de Raoul, conseguiu conter os ataques, mas morreu pouco tempo depois devido a uma doença misteriosa.

O próximo na linha de sucessão era Amadeo, um jovem de apenas dezesseis anos.

Ao saber da notícia, Paris exclamou:

— Os céus estão ajudando nosso Reino de Gracia! Um rei de dezesseis anos? Isso será a queda de Aden!

Paris, contudo, subestimou gravemente o jovem Amadeo.

O rei adolescente conseguiu defender Aden com brilhantismo de um ataque em grande escala vindo de Elmore.

Paris percebeu que sua oportunidade de conquistar Aden estava desaparecendo.

Ignorando o conselho de todos, inclusive de seu homem de confiança Dillios, lançou um ataque maciço contra Aden por terra e por mar.

O resultado foi desastroso.

Asteir, antigo rei de Elmore, havia se aliado a Aden, apesar da antiga rivalidade de sua família com o reino.

Furioso, Paris gritou:

— Você não tem vergonha? Deveria cair sobre a própria espada antes de lutar ao lado do inimigo de seu pai!

Asteir ignorou a provocação.

— O filhote pode ser tratado depois. Neste momento, você é minha principal presa.

A Batalha de Giran tornou-se o ponto de virada da guerra.

As tropas de Gracia foram derrotadas e, desmoralizadas, recuaram para suas próprias terras.

A derrota na invasão de Aden feriu profundamente o orgulho de Paris, que nunca havia conhecido o fracasso.

Algum tempo depois, ele adoeceu e morreu.

O herdeiro de Gracia era um homem frágil chamado Carnaria, considerado por muitos incapaz de governar.

Cucarus contestou sua reivindicação ao trono.

Apoiado por Dillios, antigo conselheiro de confiança de Paris, Cucarus ganhou grande popularidade entre o povo.

O reino acabou dividido em duas facções.

North Gracia e South Gracia tornaram-se inimigas e passaram a consumir todas as suas forças em conflitos entre si.

Para Amadeo, aquilo foi uma excelente notícia.

Ele aproveitou a divisão de Gracia para fortalecer Aden.

Por meio de seus esforços, Aden, Elmore e Gracia finalmente assinaram um tratado de paz.

Assim teve início uma era de paz inquieta.

EPISÓDIO 21 — EPÍLOGO

Quando o homem terminou sua história, a luz começava a surgir no céu escuro.

A longa noite havia passado e o amanhecer se aproximava.

Da fogueira restavam apenas cinzas ainda fumegantes.

O contador de histórias acendeu novamente seu cachimbo e tragou pensativamente.

— Então minha história chega ao fim, por enquanto. À medida que o tempo passa, talvez ela continue. Quem sabe? Talvez um dia os nomes de vocês também façam parte da minha história.

A luz da manhã começou a iluminar a floresta.

Senti de repente que um acontecimento importante estava prestes a escapar diante de meus olhos.

Precisei reunir coragem para encontrar minha voz e finalmente perguntei:

— Quem é você? Por que nos contou essas histórias? E como sabe de tudo isso?

O homem levantou-se sem responder.

Enquanto se erguia, seu corpo começou a crescer.

Sentado, parecera um homem comum.

Agora, porém, tornava-se um gigante de quase vinte pés de altura, projetando sua sombra sobre todos nós.

Mesmo assim, suas feições continuavam impossíveis de distinguir sob o pesado manto com capuz.

Então, lentamente, começou a desaparecer.

É difícil explicar o que vimos.

Era como se seu corpo se desfizesse pelas extremidades.

De repente, uma rajada de vento atravessou o lugar e ele desapareceu como poeira levada pelo ar.

Naquele momento, ele não nos revelou coisa alguma.

Mas agora acredito saber quem era.

Disfarçar-se para contar histórias às diferentes raças do mundo parece exatamente o tipo de coisa que faria alguém que existe desde o início dos tempos.

Talvez até mesmo aquele que criou a humanidade.